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quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Você conhece a Bíblia? - I Tessalonicenses


A Primeira Epístola do Apóstolo Paulo aos Tessalonicenses (1Ts) é a oitava epístola paulina, sendo o décimo terceiro livro do Novo Testamento e o 52º livro da Bíblia.
1 Tessalonicenses possui 5 capítulos e 89 versículos. 16 versículos, 18% do livro, são considerados proféticos. Não há citações diretas do Antigo Testamento na carta.
Considera-se que as duas epístolas aos Tessalonicenses contém vinte referências diferentes à Segunda Vinda de Cristo, sendo este evento mencionado em todos os capítulos.


Tessalônica

Tessalônica (Saloniki) foi construída por ordem de Cassandro em 316 a.C., dando o nome de sua esposa, meia-irmã de Alexandre, o Grande. Foi uma cidade importante tanto no período macedônico quanto no romano; possuía mais de 200 mil habitantes, um excelente porto natural e localizava-se na Via Egnatia, uma importante estrada que atravessava toda a região do atual norte da Grécia (de leste a oeste), passando por Filipos e Apolônia. Tessalônica distava cerca de 160 km de Filipos. Era a capital da província romana da Macedônia desde 146 a.C., e uma cidade livre após a batalha de Filipos, em 42 a.C. Como "cidade livre", era governada pelo "povo" (demos), com politarcas (oficiais peculiares à região) eleitos. Lucas usa esse termo raro (At 17.6, “magistrados da cidade”). Esses oficiais se preocupavam principalmente em manter a paz; não queriam que os romanos tirassem seu status de cidade livre. No século 19 foi descoberto um bloco de pedra maciça com a expressão politarcas gravada, que fazia parte de um arco que passava sobre a Via Egnatia, e hoje mantida no Museu Britânico. A expressão é rara e desconhecida do grego até essa descoberta arqueológica, provando que Lucas era um ótimo historiador.

Por estar nessa importante rota comercial e pelo acesso ao mar Egeu, muitas pessoas se mudaram para Tessalônica, por razões comerciais. Entre estas um grande número de judeus. Muitos gentios, insatisfeitos com a imoralidade pagã, foram atraídos ao monoteísmo dos judeus. Ainda assim, muitos eram repelidos pelo nacionalismo rigoroso e o legalismo do judaísmo, e permaneciam apenas como "tementes a Deus", sem se tornar prosélitos.

A Igreja em Tessalônica

Após a visão do macedônio, o Evangelho chegou à Europa, na segunda viagem missionária. Paulo e seu grupo navegaram de Trôade para a ilha de Samotrácia e, depois para Neápolis – a cidade portuária de Filipos (Atos 16.8-12). Aqui, o apóstolo encontrou a vendedora de púrpura Lídia, expulsou o espírito de adivinhação de uma jovem escrava e foi publicamente espancado e preso. Ao saber que Paulo e Silas eram cidadãos romanos, as autoridades se desculparam, libertaram os apóstolos e os incitaram a deixar a cidade. (At 16.13-40).
Paulo e Silas, pela Via Egnatia, passaram através de Anfípolis e Apolônia antes de chegarem a Tessalônica, provavelmente no início do verão do ano 50. Paulo foi para a sinagoga local e pregou três sábados, tentando provar que Jesus era de fato o Ungido — o Messias — prometido pelas escrituras judaicas (At 17.1-3).
Não somente judeus como Aristarco (Cl 4.10-11) se converteram, mas também “gregos devotos” – gentios que frequentavam a sinagoga, mas não haviam feito a circuncisão. Também um número considerável de mulheres importantes da cidade respondeu à mensagem (At 17.4). Tessalônica foi a primeira cidade onde o Evangelho foi aceito por pessoas de alta classe social. Aqui, Paulo estabelece a segunda maior igreja do continente europeu. A fé dos cristãos em Tessalônica tornou-se amplamente conhecida (1Ts 1.7-8). Ao menos duas vezes a Igreja de Filipos enviou ajuda financeira a Paulo durante as várias semanas que esteve em Tessalônica (Fp 4.16).
Atos dos Apóstolos destaca as origens judaicas da Igreja em Tessalônica, mas as cartas de Paulo deixam claro que a maioria deles eram gentios (1.9).

Como antes em Filipos e depois em Bereia, o ministério em Tessalônica chamou a atenção dos oficiais romanos e dos líderes judeus. A sinagoga perdeu muitos membros, irritando os líderes judeus, que, com inveja, reuniram homens perversos e desocupados e, com uma multidão, principiaram um tumulto. Atrás dos apóstolos, invadiram a casa de seu anfitrião, Jasom; não os encontrando, arrastaram Jasom e outros irmãos para diante dos politarcas (At 17.5,6). Anunciaram que estava em Tessalônica um grupo que estava virando o mundo de cabeça para baixo, que Jasom os estava hospedando e que chamavam Jesus de “Senhor”, um título aplicado ao imperador – uma acusação muito séria, equivalente à rebelião civil (At 17.7).
Todos ficaram apreensivos porque os romanos não tolerariam a denúncia de traição ("há outro rei, Jesus"). Se a cidade abrigasse um pretendente a rei, os romanos responsabilizariam a cidade e tirariam sua liberdade. Em 49, o imperador Cláudio já havia expulsado os judeus de Roma por causa de sucessivos alvoroços no setor judaico sobre a pregação de um homem chamado Cresto {especula-se a possibilidade de Cresto ser uma corrupção de Cristo}. Os oficiais soltaram Jasom e os outros irmãos após o pagamento de fiança. Paulo e Silas deixaram a cidade à noite (At 17.10), partindo para Bereia – 100 km a sudeste. “Mas, logo que os judeus de Tessalônica souberam que a palavra de Deus também era anunciada por Paulo em Bereia, foram lá e excitaram as multidões.” Portanto em três cidades sucessivamente – Filipos, Tessalônica e Bereia – Paulo e seu grupo partiram em meio à agitação civil e seu trabalho foi interrompido.
Paulo teve que partir, ficando Silas e Timóteo para trás, e foi para Atenas (At 17.13-15). Eles deviam ir a Atenas o mais rápido possível. Em Atenas, o apóstolo estava profundamente preocupado com a situação da igreja em Tessalônica, tanto com a segurança dos conversos, quanto com sua perseverança na fé, tendo em vista especialmente a sua súbita retirada, que impediu que lhes desse toda a instrução necessária para estabelecer uma comunidade cristã recém-fundada (3.10). Ele tentou voltar duas vezes, mas Satanás o impediu (2.18). Então, ele enviou Timóteo de Atenas à Tessalônica para averiguar seu progresso (3.1-2).
Paulo então foi para Corinto, onde Silas e Timóteo mais tarde o encontraram (At 18). Timóteo trouxe um relatório favorável. Os tessalonicenses estavam prosperando em sua fé e também estavam preocupados com Paulo. As notícias sobre sua fé em meio aos problemas se espalharam pela Macedônia e Acaia, a província ao sul. Tanto Paulo quanto os tessalonicenses ansiavam por se reunir.
Renovado pelas boas novas de Tessalônica, Paulo escreveu a epístola que chamamos de 1 Tessalonicenses.

Calculando a inscrição de Gálio – uma cópia pública de uma carta do imperador ao procônsul de Acaia – pode-se afirmar que 1 Tessalonicenses foi escrito em 50 ou 51 d.C. A carta (com a possível exceção de Gálatas) é a mais antiga carta conservada de Paulo e, na verdade, o primeiro livro do Novo Testamento a ter sido escrito.

Tem-se apresentado pouca dúvida séria quanto à genuinidade da carta. A hipótese de ser pós-ano 70, escrita por um discípulo de Paulo, querendo despertar interesse na volta de Cristo, vem de argumentos que não tem apoio geral dentro da ortodoxia. O tom de cuidado pastoral e de afeição fala fortemente em favor da autenticidade da carta. Foi incluída no Cânon de Marcion (cerca de 140), e no Cânon Romano ortodoxo preservado no Fragmento Muratório do fim do século II. Irineu cita-a pelo nome, e todos os escritores patrísticos a atribuem a Paulo.

Algo de 1 Tessalonicenses

Escrita com alívio e gratidão, a epístola é marcada pelo agradecimento pelo crescimento da igreja na ausência forçada do apóstolo. O relatório de Timóteo foi encorajador, e Paulo escreveu para regozijar-se com seus amigos, por causa de seu amor por ele e a firmeza deles na fé (2.14; 3.4-6; 4.9,10). O uso do verbo "exortar" (parakaleo em 2.11; 3.2, 7; 4.1,10,18; 5.11,14) aponta para o propósito básico: exortar os cristãos tessalonicenses a continuarem firmes e a crescerem num modo de vida que agrade a Deus. [Note que a carta não contém um teologia elaborada como Romanos, nenhuma repreensão ou heresia ameaçadora como Gálatas, nem conselhos pastorais extensivos como 1 Coríntios.]
Mas, parece que Paulo pode ter sido acusado de covarde e de fugir do perigo (At 17.6,10) ou de que tinha ficado somente até receber dinheiro de Filipos (2.9; Fl 4.16). Havia um desejo de defender seu caráter, de justificar seus motivos missionários e explicar porque ele não pôde voltar (2.17-3.2). Havia também a tendência de retornarem às imoralidades pagãs, e assim Paulo escreve para exortar os crentes novos a continuarem no modo de vida cristão e a crescerem na santificação (4.1-8). Enquanto Paulo esteve lá, parte da mensagem foi acerca da iminente volta (parousia) do Senhor. Alguns, aplicando erroneamente as palavras de Paulo, desistiram de trabalhar e estavam ociosos, vivendo do trabalho dos outros. Portanto, Paulo escreveu para esclarecer qualquer compreensão errada acerca da parousia (4.11,12; 5.1-11).
Os tessalonicenses, vivendo numa cidade com governo próprio, suspeitavam de qualquer autoridade; assim, Paulo admoesta-os a respeitarem os que tinham responsabilidades e autoridade (5.12,13). Todos estes eram problemas que os cristãos novos enfrentam todo dia, e problemas para os quais as igrejas novas em áreas pagãs devem ter alguma orientação. A tendência é tentar se acomodar ao ambiente e se resignar. As exortações ao crescimento são sempre oportunas e necessárias na vida cristã.

O modelo comum do apóstolo – ensinamento teológico seguido de aplicação prática – é ligeiramente modificado em 1 Tessalonicenses.
Os capítulos 1-3 trazem lembranças de Paulo sobre seu ministério entre eles, a preocupação com a fé deles, a comissão de Timóteo para voltar para a igreja, sua alegria em saber da fé inabalável deles. Ou seja, são pessoais e tratam do passado.
Os capítulos 4-5 tratam de assuntos como pureza sexual (4.1-8; 5.23), caridade responsável (4.9-12), estima e apoio aos líderes (5.12-13), paciência e prestabilidade em relação às várias necessidades humanas (5.14-15). Ou seja, ensinamentos morais e doutrinários.
Está claro que esses conselhos só repetem o que Paulo recomendara antes quando estava com eles e que os tessalonicenses já seguem seu conselho, mas deveriam fazer “cada vez mais” (4.1), “como também o fazeis” (5.11). Das frases em 1.3 e 5.8, está claro que Paulo, e provavelmente outros antigos líderes falavam repetidamente da fé, esperança e amor como um trio das virtudes cristãs.
Uma das observações mais interessantes acerca de I Tessalonicenses é que cada um dos cinco capítulos conclui uma referência à vinda do Senhor (1.10; 2.19; 3.13; 4.17; 5.23). Juntamente com a seção extensa sobre a natureza da parousia (4.13-5.11), estes versículos devem indicar que todo o material encontra-se em relação ao fim da história. As exortações devem ser observadas nesta luz.

Os tessalonicenses tinham compreendido claramente os ensinamentos de que Jesus, ressuscitado, voltaria e triunfaria. Mas, o que aconteceria com os crentes que tinham morrido desde que Paulo foi embora, uma vez que Cristo ainda não tinha voltado?
A resposta de Paulo encheu de esperança e de consolo aqueles que choravam pela perda de pessoas queridas. Os mortos em Cristo, na verdade, seriam os primeiros a serem ressuscitados. Os cristãos vivos se uniriam a eles e seriam arrebatados para encontrar o Senhor no ar e estar para sempre com Ele.
A linguagem de Paulo descrevendo a vinda de Jesus é mais difícil de compreender quase dois milênios depois de escrita. A população do séc. I estava bastante acostumado à chegada (“vinda”) esplendorosa, alegre e antecipada de um visitante real. No dia indicado, os cidadãos sairiam da cidade para encontrar a majestade — que vinha com um amplo cortejo. Gritos de aclamação e boas-vindas surgiriam à medida que ele passasse, e aqueles que rodeassem a estrada então se uniriam ao monarca que iria a um lugar determinado. Ali seriam feitos reconhecimentos e premiações especiais (2.19). Havia alegria e admiração com a chegada esplendorosa do rei. Assim há de ser quando os vivos e os mortos forem para cima, para encontrar o Rei que vem do céu.

Imediatamente após o prenúncio da volta do Messias (4.13-18), Paulo indica (5.1-11) que a súbita volta de Jesus não surpreenderá os cristãos preparados que colocaram a armadura apropriada (5.8), a qual trabalha em todas as dimensões do tempo: fé (passado), esperança (futuro) e amor (presente).
Duas coisas estão certas: 1) a volta de Cristo é um acontecimento futuro garantido, e 2) esse acontecimento está mais próximo do que jamais esteve antes. Mas especificar uma data para a segunda vinda, ou especificar um momento no qual o Senhor deva certamente retornar, ou concentrar-se unicamente em sistemas proféticos detalhados que tentam suceder precisamente vários acontecimentos finais descritos na Escritura – são esforços que diluem a força da volta de Cristo como revelado em 1 Tessalonicenses. A última linha de Paulo – afirmada duas vezes (4.18; 5.11) – é consolo diante da morte. Tal mensagem estimula também os crentes atuais que se lamentam “por aqueles que dormem em Jesus”. Isso não desanima a expectativa (5.1-10), mas também não estimula os sistemas presunçosos de datar a volta de Jesus.

A associação paulina de Cristo com o Pai é mais um testemunho da pessoa de Cristo, do que uma declaração formal da Sua divindade. A igreja de Tessalônica está em "Deus o Pai e no Senhor Jesus Cristo", e Paulo a saúda, rogando graça e paz "de Deus nosso Pai e o Senhor Jesus Cristo" (1.1). Semelhantemente em 3.11, Paulo pede a direção divina de "nosso Senhor Jesus Cristo", tanto de "Deus... nosso Pai", numa associação estreita e direta.
Jesus, em Sua morte e ressurreição, fornece um exemplo aos crentes que sofrem agora (1.6; 2.14-15), mas que, como Ele, serão ressuscitados no futuro (1.10; 4.14,16). Os crentes de antes e de agora têm uma posição espiritual mística “no Senhor” (1.1,3; 4.1; 5.18), que, todavia, é pratica o suficiente para ser a base do respeito para governo dos anciãos (5.12).

Todos os cristãos podem afirmar que foi Deus quem “nos deu também o seu Espírito Santo” (4.8). O Espírito inspira alegria mesmo quando estamos em meio à aflição (1.6). Quando o Evangelho chegou em Tessalônica, ele não veio somente em palavras, “mas também em poder, e no Espírito Santo, e em muita certeza” (1.5), sugerindo discussão intelectual, o poder do Espírito (com sinais e maravilhas) e profunda resposta pessoal. 1Ts 5.19-21 releva um caráter vivamente carismático do louvor em Tessalônica — a atividade profética que alguns estavam inclinados a conquistar, mas para o que Paulo pede aceitação verificada: suas palavras deveriam ser lidas “a todos os santos irmãos” (5.27). Ele executa Sua parte em comunicar a vontade divina, através da declaração profética; menosprezar ou reprimir este tipo de mensagem é "extinguir o Espírito" (5.19).

Fontes:
– Bíblia de Estudo Plenitude, editor-geral Jack Hayford, Sociedade Bíblica do Brasil;
– Bíblia de Estudo Profética de Tim LaHaye, Editora Hagnos;
– O Novo Comentário da Bíblia, F. Davidson, Editora Vida Nova;
– Introdução ao Novo Testamento, Broadus David Hale, JUERP.