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domingo, 13 de setembro de 2020

Você conhece a Bíblia? - Tiago


A Epístola do Apóstolo Tiago (Tg) é a primeira epístola geral, o vigésimo livro do Novo Testamento e o 59º livro da Bíblia.
Tiago tem cinco capítulos e 108 versículos. Sete destes, ou 6%, são considerados proféticos. Há cinco citações do Antigo Testamento.

== Autor e Data ==

O autor identifica-se somente como Tiago, nome bastante comum entre os judeus (é uma versão de Jacó). O Novo Testamento enumera pelo menos cinco homens com este nome, sendo os principais: “o maior”, irmão de João e um dos doze; o filho de Alfeu, um dos doze, chamado “o menor”; e o irmão do Senhor, também chamado “o justo”. É a este que a tradição atribui o livro. Ele está relacionado entre os irmãos de Jesus em Mc 6.3 e Mt 13.55.
O apóstolo Tiago, filho de Alfeu (Mc 3.18, 15.40), poderia ter escrito a carta, mas, não há nenhuma evidência na história da igreja para ligar seu nome à epístola. O apóstolo Tiago, filho de Zebedeu, foi um dos três discípulos íntimos do Senhor, e foi martirizado por Herodes Agripa I em 44 d.C.; portanto, os estudiosos consideram esta data muito prematura para uma autoria pelo irmão de João. Além disso, não há nenhum apoio patrístico e de manuscrito antes do quinto século para esta conclusão. Evidentemente, o escritor era bastante conhecido, e Tiago, o irmão de Jesus, logo tornou-se líder da igreja em Jerusalém (At 12.17; 15.13-21; 21.18; Gl 1.19; 2.9,12).
Nos Evangelhos, Tiago e seus três irmãos (José, Judas e Simão) não eram simpáticos ao ministério de seu outro irmão, Jesus. Muitas vezes eles estiveram, com sua mãe e irmãs, acompanhando Jesus em seu ministério itinerante; mas não aceitavam sua obra (Mc 3.20-33, Mt 12,46-50, Lc 8.19-21, Jo 7.1-9). Isso fica bem evidente diante da cruz, quando Jesus encomenda sua mãe ao apóstolo João. Em 1Co 15.7, num credo resumido, é Paulo quem informa que o Jesus ressurreto apareceu particularmente a Tiago, momento provável em que Tiago veio a crer em Jesus. Ele então se torna parte do pequeno grupo de crentes, como em Atos 1.14, e implicitamente no dia de Pentecostes.
Anos depois, quando Paulo volta para Jerusalém, vindo de Damasco, ele só viu Pedro e "nenhum outro dos apóstolos, senão a Tiago, irmão do Senhor" (Gl 1.19). A autoridade de Tiago como um dos líderes na igreja em Jerusalém também é afirmada em At 12.17, quando Pedro pede que avisem Tiago de sua fuga da prisão. Na conferência de Jerusalém (At 15.14-21), como um dos apóstolos e uma das colunas da igreja em Jerusalém, Tiago esteve envolvido na discussão sobre a evangelização dos gentios e ajudou a escrever uma carta, bastante tolerante, aos cristãos gentios em Antioquia e, em extensão, a todos os lugares. Na última visita registrada de Paulo a Jerusalém (At 21.18), Tiago está definidamente como líder da igreja na cidade.
O apóstolo Tiago era reconhecido como um homem justo, a tal ponto de ser chamado "o justo" pelos judeus. O conhecido historiador judeu Flávio Josefo escreveu que Tiago, "o justo" era o irmão de Jesus, "chamado o Cristo", e que ele foi morto por ordem do sumo sacerdote, depois da morte do procurador romano Festo e antes da chegada de seu sucessor, Albino. Tiago, juntamente com alguns outros irmãos, foi acusado de ser um transgressor da lei e foi apedrejado até a morte em 62 d.C.

Mas, sendo aceito que era esse Tiago, por que o autor não se identificou como o irmão de Jesus? Na verdade, isso serve como argumento favorável. Sendo o bem conhecido Tiago, líder da igreja de Jerusalém, seu nome já é suficiente. Mas, se a carta tivesse sido escrita por outra pessoa no nome dele, certamente esse não teria esquecido dessa identificação, visando aceitação à carta; contudo, ele não tenta identificar-se com a grande figura que é o suposto autor. E, principalmente, mesmo para Tiago e Judas, Jesus era o Senhor. Tiago não enxergara isso durante a vida de Jesus, mas agora, em sua humildade e justiça, estava reconhecendo sua indignidade de alegar tal relação como um irmão físico. O irmão convertido, Tiago, não era um homem orgulhoso; era um escravo do Senhor Jesus Cristo.
Outro fator de confirmação da identidade deste Tiago com o irmão do Senhor é o discurso de Tiago em Atos 15, por semelhanças de pensamento e estilo, e até mesmo na carta do concílio. A evidência interna também alude às semelhanças do ensino de Jesus (especialmente do Sermão da Montanha). O autor não poderia estar citando nossos Evangelhos; Tiago parece estar mais próximo dos homens que ouviam as palavras de Jesus do que daqueles que as escreveram. A relação de Tiago com o ensino de Jesus para com a lei é especialmente significativa. Jesus não aboliu a lei; Ele aprofundou e esclareceu o propósito dela, ao ponto de Tiago poder permanecer fiel pelo resto de sua vida a seus preceitos.
Isso ajuda a perceber com clareza que o autor era judeu. Ele chama Abraão de "nosso pai" (2.21), o lugar de adoração de "sinagoga" (2.2), usa a palavra hebraica "gehenna" (3.6) e uma palavra especialmente judaica para Deus (5.4). Os termos de agricultura e vida doméstica, e sua familiaridade com a Palestina é mostrada nos nomes dos ventos (1.11), as chuvas temporã e serôdia (5.7), o uso dos juramentos e a vida nas sinagogas. O uso do Velho Testamento para finalidades ilustrativas é de maneira comum, mais a figueira (3.12), o adultério espiritual (4.4), os últimos dias (5.3) e a ordem para limpar as mãos (4.8), tudo tem uma clara ligação veterotestamentária.

Eusébio de Cesareia registra que a Epístola de Tiago eram um dos cinco textos chamados “livros disputados” (antilegómena), junto com II Pedro, II e III João, e Apocalipse, e isso por causa da autoria. Entretanto, Eusébio a aceitava como autêntica e canônica. A carta não aparece na igreja de fala latina até esse período, no quarto século, enquanto a primeira indicação encontrada na igreja síria é do começo do quinto século. Na igreja de fala grega, Orígenes é o primeiro a mencionar a carta pelo nome, que também a tinha como genuína. Na época de Atanásio (367 d.C.), a carta foi reconhecida no cânon e como sendo de Tiago, o irmão do Senhor. Houve alguma contestação, mas ela foi aceita como genuína.

A carta não apresenta qualquer referência pessoal ou saudação a indivíduos; é endereçada às doze tribos da Diáspora (1.1). Por isso, acredita-se que Tiago pretendia que sua carta circulasse entre os cristãos judeus, primeiros recebedores da mensagem do Messias Jesus e maior número dos crentes nos primeiros dias.
O tom e conteúdo geral da carta revela claramente que foi escrita aos judeus crentes (1.18, 2.7, 5.7, 1.12). Sabemos por Atos que judeus de muitos países estavam em Jerusalém no dia de Pentecostes, e muitos se converteram naquele dia e depois retornaram ao seu próprio país. Também sabemos que muitos foram dispersos pela perseguição depois da morte de Estevão. Desta forma, deveriam haver muitos judeus cristãos espalhados, já numa data remota. E provavelmente, eles residiam na parte oriental do Império e falavam grego.

O que nos leva ao fato que sendo em 62 d.C. a morte de Tiago, a carta foi escrita antes. O conteúdo do livro sugere que pode ter sido escrita antes do concílio de Atos 15, que se reuniu por volta de 49 d.C., já que a organização da igreja é ainda primitiva: como a reunião na sinagoga, (2.2); a divergência entre o rico e o pobre (5.1-6); a intensa expectativa pela volta do Senhor (5.7-9); não conhece o problema da circuncisão e das relações judaico-cristão; parece haver mais opressão do que perseguição; os termos judaicos, etc. Assim, provavelmente a carta é o livro mais antigo do Novo Testamento.

== Algo de Tiago ==

A Epístola de Tiago é a primeira do grupo de sete livros do Novo Testamento chamado de Epístolas Gerais ou Católicas. Obviamente, protestantes são hesitantes em usar o termo “católicas”, palavra grega para “geral” ou “universal”. Mesmo na tradução latina, a Vulgata, preferiu-se o termo Católicas, que popularizou o título entre tradutores e estudiosos.
Eusébio (265-340) é o primeiro escritor que temos registrado do uso do termo "Católicas" para as sete cartas, embora escritores mais antigos tenham chamado essas cartas individuais de “gerais”. Um comentário anônimo do sétimo século afirma que o termo foi usado porque estas cartas são encíclicas; ou seja, não são endereçadas a igrejas ou pessoas individuais, mas escritas coletivamente a todas as igrejas. Esta descrição geral vale para Tiago, I e II Pedro, I João e Judas. Ainda que II e III João são endereçadas a particulares, foram consideradas como anexas a I João e foram agrupadas com ela. A posição destas sete cartas, no Novo Testamento, segue a ordem da Vulgata, sendo a geralmente adotada pela igreja ocidental (Evangelhos, Atos, Epístolas Paulinas, Epístolas Gerais, Apocalipse), apesar de algumas divergências na igreja antiga. Dentro do próprio grupo, a ordem parece derivar das três colunas da igreja: Tiago, Cefas e João (Gl 2:9), sendo Judas o menos importante dos quatro. A única exceção é encontrada no final do quarto século (Pedro, João, Tiago, Judas), revelando a crescente importância da Igreja Romana.

Tiago é prático e ético, enfatizando o dever ao invés da doutrina. O apóstolo escreveu para repreender à negligência vergonhosa de determinados deveres cristãos. Ele analisou a natureza da fé genuína e estimulou seus leitores a demonstrar a eficácia de sua experiência do Cristo. Sua principal preocupação era a realidade na religião, e ele apresentou as reivindicações práticas do evangelho.

Ao invés de especular ou debater sobre teorias religiosas, Tiago direciona seus leitores para uma vida piedosa. Do início ao fim, o tom desta carta é imperativo. Em 108 versos, são dados 54 mandamentos evidentes, e 7 vezes Tiago chama a atenção para suas declarações usando termos de natureza imperativa. O resultado é uma declaração da ética cristã, que se iguala a ensinamentos semelhantes no NT.

A carta de Tiago contém os seguintes temas:
1. Fé genuína. Tiago não é uma contradição dos ensinamentos de Paulo, segundo os quais a salvação está baseada somente na fé (Gl 3.6-14); antes, a “fé” que reconhece que Deus existe, mas não confia n’Ele nem se manifesta por meio de uma vida transformada não é fé de verdade.
2. Boas obras. Tiago apresenta a inevitabilidade das obras, outro termo para “fruto”: as ações do amor cristão não se dissociam da fé genuína.
3. Genuína sabedoria. Tiago apresenta dois tipos de sabedoria: uma falsa, produtora de inveja e ambição egoísta (3.14), e a genuína sabedoria, que resulta em humildade, atos de misericórdia e conduta justa (3.13). A sabedoria ajuda os cristãos a controlar o que falam (3.1-12) e promove bons frutos (3.17,18).

O estilo se assemelha à literatura de sabedoria do Antigo Testamento, marcado por instruções para o viver diário e por uma compreensão das perplexidades da vida. Dentre as citações às Escrituras judaicas, talvez a mais famosa venha de Levítico 19.18, a qual Tiago chama de “a lei real” (2.8).

Lutero e outros criticaram a carta de Tiago, achando que ela contradiz a doutrina paulina da justificação pela fé. Contudo, não há divergência entre os escritos dos apóstolos. Tiago escreveu antes da grande controvérsia entre Paulo e os judaizantes. Segundo Tiago, a fé deve ser demonstrada pelo viver correto. Assim, o viver incorreto prova a inexistência da fé no Senhor Jesus Cristo ou uma fé morta (2.14-26). Paulo lutou contra o legalismo judaico que punha nisso as bases para a salvação; Tiago lutava contra o viver imoral e não-ético. Tiago afirma que a fé deve produzir o viver justo, o mesmo fruto do Espírito que Paulo relacionou em Gl 5.16-26. Na verdade, os apóstolos representam os dois aspectos do cristianismo, opondo-se a diferentes inimigos do evangelho.

Os destinatários de Tiago não desconheciam as doutrinas básicas do cristianismo; se fosse esse o caso, ele corrigiria isso com autoridade, e teríamos então outro livro sobre doutrina. É por isso que o enfoque do apóstolo não é teoria. A carta não busca lançar novamente os alicerces da fé cristã, mas mostra a necessidade de edificar-se uma vida cristã honesta sobre o alicerce já construído (1Co 3.10-15). As faltas contra as quais Tiago escreveu (fé sem obras, palavras sem atos, censuras, ambição, amor desordenado pelo ensino, dar lugar à riqueza e à posição, tratamento depreciativo dos pobres, cobiça sob a capa de religião) são tipicamente farisaicas. Assim, Tiago exorta seus leitores a transcenderem o judaísmo formalístico na prática, e não apenas na crença em Jesus como o Cristo; agora, que eles se portem como verdadeiros discípulos do Senhor, não como os discípulos dos fariseus. Ou, sendo mais claro ainda, os demônios também creem e temem diante do nome de Jesus; seremos iguais a eles?

Esses aspectos da relação fé-obras são orientações que servem a todos os tempos e lugares, tais como: suportar tribulações e tentações; cumprir a palavra e não ser apenas ouvinte; e usar adequadamente a língua. Milhões de erros, e até mortes, aconteceram por deixarmos de lado os conselhos do irmão de Jesus. A falta de sabedoria e fé verdadeira marcaram negativamente a história da Igreja.
Portanto, a invocação do livro para a vida ética baseada no evangelho fornece sua relevância. Tiago faz uma exposição prática da religião pura e imaculada (1.27). Suas duas ênfases fundamentais são o crescimento pessoal na vida espiritual e a sensibilidade em relacionamentos sociais. Qualquer fé que não lide com assuntos pessoais e sociais é uma fé morta. A mensagem de Tiago dirige-se especialmente àqueles que estão inclinados a falar do seu caminho para o céu ao invés de caminhar na fé aqui.
Ao leitor moderno, não pode escapar os aspectos e problemas sociais e as tarefas da religião dentro do contexto social. A Igreja foi participante de diversas estruturas sociais malignas, como a escravidão, o apartheid e a exploração dos poderosos; tais questões não podem ser mais toleradas. A fé justa em Jesus o Cristo precisa opor-se a esses males, tanto dentro da Igreja quanto fora.

Começando no primeiro verso e continuando por toda a carta, Tiago reconhece a autoridade de Jesus, referindo-se como “servo”, ou escravo, do Senhor. O termo é aplicável a todos os cristãos, pois todos os verdadeiros discípulos de Cristo reconhecem sua soberania sobre suas vidas e se comprometem espontaneamente a seu serviço. Cristo é o objeto de nossa fé (2.1), aquele em cujo nome e em cujo poder realizamos nosso ministério (5.14,15), o recompensador de todos aqueles que se mantém firmes em meio a julgamentos (1.12), e aquele que virá, por quem pacientemente esperamos (5.7-9). Tiago identifica Cristo como a “glória” (2.1); não somente glorioso por si mesmo, ele é a glória divina, a presença de Deus na terra (Lc 2.30-32; Jo 1.14; Hb 1.3).
De considerável interesse é o paralelo próximo entre o conteúdo dessa carta e a doutrina de Jesus, especialmente o Sermão da Montanha. Embora Tiago não cite exatamente nenhuma declaração de Jesus, há mais reminiscências verbais da doutrina do Senhor nesta carta do que em todo o resto das epístolas combinadas no NT. Essas alusões indicam uma associação próxima entre Tiago e Jesus e evidenciam a forte influência do Senhor na vida do autor.

Quatro profecias distintas aparecem no livro do apóstolo Tiago: 1.12; 2.12,13; 5.2,3,7,9. A primeira profecia é a promessa de uma coroa de vida, a qual será dada como recompensa aos que foram fieis ao Senhor nesta terra ou foram martirizados por seu compromisso com Cristo (Ap 2.10). Afirmações sobre a Vinda de Cristo são encontradas em 5.7,8, onde o autor roga aos crentes que sejam pacientes até a vinda do Senhor.

A carta menciona especificamente o Espírito Santo somente em 4.5, onde se declara que o Espírito que habita em nós deseja a nossa lealdade completa, não suportando rivalidade.
A atividade do Espírito Santo pode ser vista no ministério aos doentes descrito em 5.14-16. À luz de outra terminologia bíblica que liga unção com o Espírito (Is 61.1; Lc 4.18; 1Jo 2.20-27), o ungir com o óleo é melhor compreendido como símbolo do Espírito Santo. Além do mais, no grego, o artigo definido usado com a palavra “fé” em 5.15 particulariza essa fé, sugerindo que Tiago está se referindo à manifestação do dom da fé (1Co 12.9).

Fontes:
– Bíblia de Estudo Plenitude, editor-geral Jack Hayford, Sociedade Bíblica do Brasil;
– Bíblia de Estudo Profética de Tim LaHaye, Editora Hagnos;
– O Novo Comentário da Bíblia, F. Davidson, Editora Vida Nova;
– Introdução ao Novo Testamento, Broadus David Hale, JUERP;
– Bíblia de Estudo Arqueológica NVI, Editora Vida.


Esse pretenso estudo é apenas um resumo a partir de textos lidos, e, às vezes, algumas considerações minhas. Contudo, apesar de apresentar algumas ideias comuns a muitas correntes, vale lembrar que representa apenas uma pequena parte do grande universo de estudos bíblicos, com suas diversas interpretações do que concebemos como revelação e da diversidade de correntes cristãs.
Ainda reitero que em algum momento esse pequeno texto será revisado, e alterado, a depender do meu tempo e vontade.

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